Thiers Martins Moreira

De Thiers Martins Moreira sobre Tempo de Lisboa

Estamos diante de um poeta sem compromissos de escolas literárias, sem essas vinculações com movimentos sistematizadores do processo criador a que, normalmente, o artista se prende. Sua poesia é, por isso, inteiramente livre, sem as marcas de uma geração, no tratamento dos temas com que a vida motivou a inspiração. Às vezes, por isso, esse livro parece uma antologia de história poética, desde os simbolistas ao modernismo. Há nisto, acredito, um propósito consciente de Odylo Costa, filho. Virtuose das técnicas do verso, corno seu mestre e amigo, Manuel Bandeira, caminhou com elas, em suas variedades, para onde o famoso toque da inspiração o levasse. Disto é um exemplo aquela “Canção do Exílio” com que abre o livro. Assim cantam também Alphonsus Guimaraens e Antônio Nobre. O ritmo é o mesmo e igual o agrupamento estrófico e a escolha das rimas, tudo com o admirável sabor de velho rimance. Aí Odylo, em 1965, se vestiu com roupagens procuradas do tempo de Verlaine. Mas se o simbolista vive na “Canção do Exílio” (com que, estando em Lisboa, segue a tradição de Casimiro de Abreu e de Gonçalves Dias), o modernista, um contemporâneo de Mário de Andrade, de Cassiano e de Drummond, aparece com o realismo nacional e com o sutil gosto de uma visão histórica de lendas regionais e de escravidão, no Romance dos Pretos da Capela Velha. Belo poema que desenrola um intenso drama sob um fundo de natureza teatral, que aviva as cores dos versos na boca do narrador, personagem central. Leia o poema e verá se não estou certo.

Em verdade, porém, se no livro se acha uma antologia, os pontos antológicos mais altos são os sonetos. Não há dúvidas. A afirmação é gratuita tal a força da evidência: Odylo Costa, filho, é um mestre do soneto. Com que excepcional domínio de suas possibilidades ele joga com a velha forma poética! E, senhor de suas leis, ousa, por vezes, agrupar os versos em trançado diferente de rimas como quem, possuidor de um reino, sabe até onde vai o seu direito de lhe marcar as fronteiras. Mas isso são minúcias de análise poética. Fujo delas para ter tempo de dizer, ainda, que nisto de sonetos de Odylo Costa, filho, não posso deixar de ver a marca de sua Província, o Maranhão, de que nunca esteve social e sentimentalmente afastado. Aquele S. Luís, burgo de azulejos e sobrados com sacadas de ferro, conserva de tal modo sua tradição plástica, que inútil será tentar fugir à sua atmosfera quem ali se criou. Filho intelectual da Atenas Brasileira (conservemos a denominação enquanto for possível), Odylo Costa, filho, encontra-se com o soneto para deixar, em vários deles, algumas das mais intensas dores íntimas que puderam ser sintetizadas na consagrada forma. Também neste ponto não tenho dúvidas: o tema da separação impossível, a que Machado de Assis deu expressão no soneto A Carolina, só irá encontrar, em língua portuguesa, força igual ou talvez superior, nos versos de Odylo Costa, filho, Sonêto da Fidelidade.

(“Diário de Noticias”)