Marco Aurélio Mello Reis

Sonetos de Odylo Costa, filho

Marco Aurélio Mello Reis

1

Voltam visões de campos sossegados.
Vacas e bois mugindo no curral…
Voltam visões azuis de céus amados.
Quando a vida era um grito inaugural.

Voltam teus pés correndo nos cerrados.
E subindo a mangueira do quintal.
Em teus olhos meninos deslumbrados.
Há sonho e luz… A infância é de cristal.

Volta no vento uma visão de flor.
Tão frágil, mas tão verde de esperança,
Que a vida é um chão aberto para o amor.

Tudo volta. E até mesmo teu menino
Que pelo espaço azul da tarde mansa
É luz de estrela, canto, voz de sino…

2

Aquele que, menino, traz no peito
O amor continuamente renovado
Nas raízes do ser, e o ser desfeito.
Renasce pelo amor multiplicado

(Que por gestos se prova, amor perfeito)
E embora em duros golpes já provado,
E desses golpes quase mal refeito,
Só com o outro se ocupa, dedicado,

Quando menos se espera, traz consigo
— Sonho antigo de antigas madrugadas —
O amigo, bom como a água e como o trigo.

Deixando duas almas confundidas
No amor de grandes dores sublimadas.
No amor das alegrias repartidas.

Luis Veiga Leitão

Ode à amizade

Luis Veiga Leitão

1

Por teu verbo em passe de mágica
eu te louvo
quando pões o “coração nas mãos”
ou entre
os dentes
o “coração na boca”.

Por tua palavra, gesto e fruto,
que nos tempos do tempo renovas
eu te louvo
não pelo gesto que és
mas pelo fruto que provas.

Por tua faca e suas artes
por teu punho a romper do seio
eu te louvo
pão único que repartes
migalha cortada ao meio.

Fome nenhuma fica impune.

Teu gume é como golpe na água:
a lâmina que a retalha
é a mesma que a reúne.

2

Poeta de rosto solar
Poeta do amor pelo amor
das coisas, dos bichos, do ser.

Quem o pode empobrecer
na simplicidade rica?

É como vinho do Alto Douro:
quanto mais tempo nele passa
mais ouro fica

José Chagas

O poeta — sessenta vezes

José Chagas

1

Sessenta anos de Odylo,
tempo-homem, sal de sonho,
triste coração tranquilo,
alegre em seu ser tristonho.

Sessenta vezes a vida
navalhando carne e osso,
por sobre a alma retida
num coração sempre moço.

Sessenta silêncios puros
quebrados por um talento
capaz de rebentar muros
e abrir flores de azul lento.

Sessenta voltas bem dadas
no parafuso da vida,
que aperta luas e espadas
sobre a emoção incontida.

Sessenta vezes Odylo
em tempo de ser e estar,
e a vida a vê-lo e a ouvi-lo,
constante no seu cantar. 

2

Suponha o peso do mundo
esmagando um só alma,
que, em seu cântico profundo,
celebra a vida e se acalma;

suponha a dor na medida
de sua angústia maior
e a esperança consumida
em pranto, em sangue, em suor,

mas florindo disso tudo
lição de grandeza humana,
humildade em peito mudo,
paz que dos olhos emana.

Suponha a flecha que deixa
sangrando a alma atingida,
mas não planta nela a queixa,
nem lhe desespera a vida,

e veja que quem sustenta
no riso a dor que lhe dói,
na glória de seus sessenta.
sabe ser poeta e herói.

E mesmo assim não se ilude
pelo que foi ou que é,
mas se cabe na virtude
do homem de Nazareth,

esposo em Cristo e em pessoa,
pai sofrido, mas fiel
a quem para ele povoa
de bichos o próprio céu,

e lhe escuta a poesia
feita de um tecido puro,
onde em paz se refugia,
quando a vida está no escuro,

pois a palavra é a senha
com que ele ingressa no sonho,
pronto para o que lhe venha
de mais festivo ou tristonho.

Quem sabe o fluir da faca
sobre a lâmina do rio,
sabe o quanto a morte é fraca
no seu desatino frio.

Mas quando a palavra avança
sobre faca e rio e morte.
vem recriar na lembrança
outro universo mais forte,
outra faca de memória,
outro rio mais profundo,
onde, eterna e transitória,
corre a verdade do mundo.

Nessa verdade, o Odylo
em sua força mental.
Impossível poluí-lo.
manchar seu puro metal.

Inútil desmerecê-lo.
que ele se cresce por dentro.
e o fio do seu novelo
liga a superfície ao centro,

marra-o em torno da vida
com sua lira e o seu canto.
que é de paz oferecida
ao mundo que o feriu tanto.

Pois, curtido em seus sessenta,
está o escritor maduro,
que o passado experimenta
para forjar o futuro.E na Cantiga incompleta,
onde as palavras se comem,
está inteiro o poeta.
Mais do que o poeta — o homem.

Afonso Arinos de Melo Franco

Odylo 60 anos (Canção do Amigo)

No Maranhão tem petróleo
Petróleo tem no Piauí
Mas de lá vêm dois amigos
De mais valor para mi

(O mi de Gonçalves Dias
Eu quero empregar aqui
Para festejar o poeta
Do Maranhão-Piauí)

O poeta ainda menino
Que Couto me apresentou
E que após vário destino
A alma da infância guardou

Menino encontrou menina
E logo sofreu de amor
Ela era a flor da campina
Em flor de Campo Maior

Flores tecidas de estrelas
Tinha a grinalda do véu
Da noiva e ao acendê-las
Deus floriu o azul do céu

Os caminhos desta vida
Escondem duros espinhos
Mas o sangue da poesia
São flores desses caminhos

Odylo rasgou a alma
Nas subidas e descidas
Mas as rimas como palmas
Lhe perfumaram a vida

Por isto seguindo a estrela
Que aponta de Nazaré
Venho depor a oferenda
Do poeta-menino ao pé

Não mirra ou incenso apenas
Das minhas exaustas minas
Estas pepitas humildes
Das pobres lavras de Minas

Grãos de ouro-podre ouro-preto
Coitado pobre de mi
Ofertas ao novo Dias
Do Maranhão-Piauí 

Alphonsus de Guimaraens Filho

Num exemplar de Itinerários

Nazareth e Odylo
— a musa e o poeta —:
este livro, asilo
da aventura inquieta

da vida, eis oferto
com a pura amizade
de quem, no deserto,
rumo à eternidade,

sente na alma aflita,
quando os dias somem,
que Deus necessita
do perdão dos homens.

E ainda mais sente.
do silêncio à voz,
que Deus dói em nós,
— estrela cadente.

Carlos Drummond de Andrade

Odylo Costa, filho

Odylo, cidadão tranquilo, suave patriarca,
chega aos sessent’anos e não se exaure a arca

de onde retira os dons da rosa, os dons da vida
entre amigos e versos e ideias, repartida

com tal leveza e arte que não se sabe se é
uma riqueza só dele mas também de Nazareth,

a companheira — mais do que isto, o cristalino
risco indicador do dia, entre o caos e o destino,

que torna o ato de pousar aqui e agora na paisagem
ensaio de habitação em mais perfeita paragem.

Odylo de manso conviver e fundo madurar
o que foi dor no caminho e, sábio, a transformar

em sentimento do eterno e palavra de amor
a todos ofertada — palma. canto e verdor.

%d blogueiros gostam disto: