Thiers Martins Moreira

De Thiers Martins Moreira sobre Tempo de Lisboa

Estamos diante de um poeta sem compromissos de escolas literárias, sem essas vinculações com movimentos sistematizadores do processo criador a que, normalmente, o artista se prende. Sua poesia é, por isso, inteiramente livre, sem as marcas de uma geração, no tratamento dos temas com que a vida motivou a inspiração. Às vezes, por isso, esse livro parece uma antologia de história poética, desde os simbolistas ao modernismo. Há nisto, acredito, um propósito consciente de Odylo Costa, filho. Virtuose das técnicas do verso, corno seu mestre e amigo, Manuel Bandeira, caminhou com elas, em suas variedades, para onde o famoso toque da inspiração o levasse. Disto é um exemplo aquela “Canção do Exílio” com que abre o livro. Assim cantam também Alphonsus Guimaraens e Antônio Nobre. O ritmo é o mesmo e igual o agrupamento estrófico e a escolha das rimas, tudo com o admirável sabor de velho rimance. Aí Odylo, em 1965, se vestiu com roupagens procuradas do tempo de Verlaine. Mas se o simbolista vive na “Canção do Exílio” (com que, estando em Lisboa, segue a tradição de Casimiro de Abreu e de Gonçalves Dias), o modernista, um contemporâneo de Mário de Andrade, de Cassiano e de Drummond, aparece com o realismo nacional e com o sutil gosto de uma visão histórica de lendas regionais e de escravidão, no Romance dos Pretos da Capela Velha. Belo poema que desenrola um intenso drama sob um fundo de natureza teatral, que aviva as cores dos versos na boca do narrador, personagem central. Leia o poema e verá se não estou certo.

Em verdade, porém, se no livro se acha uma antologia, os pontos antológicos mais altos são os sonetos. Não há dúvidas. A afirmação é gratuita tal a força da evidência: Odylo Costa, filho, é um mestre do soneto. Com que excepcional domínio de suas possibilidades ele joga com a velha forma poética! E, senhor de suas leis, ousa, por vezes, agrupar os versos em trançado diferente de rimas como quem, possuidor de um reino, sabe até onde vai o seu direito de lhe marcar as fronteiras. Mas isso são minúcias de análise poética. Fujo delas para ter tempo de dizer, ainda, que nisto de sonetos de Odylo Costa, filho, não posso deixar de ver a marca de sua Província, o Maranhão, de que nunca esteve social e sentimentalmente afastado. Aquele S. Luís, burgo de azulejos e sobrados com sacadas de ferro, conserva de tal modo sua tradição plástica, que inútil será tentar fugir à sua atmosfera quem ali se criou. Filho intelectual da Atenas Brasileira (conservemos a denominação enquanto for possível), Odylo Costa, filho, encontra-se com o soneto para deixar, em vários deles, algumas das mais intensas dores íntimas que puderam ser sintetizadas na consagrada forma. Também neste ponto não tenho dúvidas: o tema da separação impossível, a que Machado de Assis deu expressão no soneto A Carolina, só irá encontrar, em língua portuguesa, força igual ou talvez superior, nos versos de Odylo Costa, filho, Sonêto da Fidelidade.

(“Diário de Noticias”)

Vitto Santos

De Vitto Santos sobre Tempo de Lisboa

Odylo Costa, filho, confessa que desejaria escrever “como um galho de árvore seca, entretanto úmido da noite”. E nesse artigo do regulamento de sua Arte Poética pode-se encontrar o fácil segredo da sua virtualidade de bardo. É seco porque é despojado, substantivo, sem filigranas torcidas, sem despautérios rítmicos ou vocabulares. sem parábolas orgíacas do pensamento. Mas é úmido e noturno porque aduba de mistério as raízes do seu canto. Daí porque os seus poemas não são flores ornamentais mas flores vivas, generosas: eternas.

(em Poesia e Humanismo, Editora Artenova Ltda., Rio: 1971.)

Valdemar Cavalcanti

De Valdemar Cavalcanti sobre Tempo de Lisboa

A prosa de Odylo Costa, filho — mesmo a prosa de circunstância, destinada a jornal, crônica ou reportagem, tudo de primeiríssima, — a verdade é que nunca me enganou: por baixo do texto corria, manso, um veio de poesia. Ele disfarçava da melhor maneira, mas não tão bem que não nos deixasse descobrir a face do poeta. E era o que me impressionava: tantos, neste País, paquerando a poesia, namorados sem sorte ou noivos de não casar nunca, só dispondo de seu de uma fina linha de poesia capaz de passar pelo fundo de uma agulha, e ele, com aquela riqueza toda, dando de ombros e esnobando. Só a custo consentiu em aparecer na condição de bissexto, obra e graça de Manuel Bandeira. Foi preciso, desgraçadamente, que um dia a dor mais funda e o sentimento mais dramático da vida o levassem a soltar a voz, que é hoje das mais límpidas e harmoniosas da poesia brasileira.

(“Diário de Notícias”)

Odylo Costa, filho

De Odylo Costa, filho sobre Tempo de Lisboa

Desde quando me juntei ao meu saudoso amigo Henrique Carstens para reunir, no “Livro de Poemas de 1935”, o número de versos necessário a concorrer ao prêmio da Academia Brasileira (tivemos menção honrosa, porém o realmente honroso foi ser vencido pelo premiado, que aliás até hoje não publicou o seu “Magma”: chamava-se Guimarães Rosa) — desde aquele tempo só eventualmente fiz versos. Mais bissextamente ainda dava-os à publicidade. Havia, porém, um amigo que sempre pensava em mim como poeta.: dedico este livro à memória de Ribeiro Couto, em testemunho de fraterna estima que o tempo e a morte não venceram.

Um dia, em 1964, Manuel Bandeira me pediu poemas novos para a segunda edição da sua “Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos”. Dei-lhe alguns que nem a ele mesmo mostrara, tão íntimos e inseguros me pareciam. Sua reação me animou para uma volta mais constante à poesia. Escrevo aqui seu nome de “pai e amigo, padrinho e irmão, meu santo leigo”. Escrevo também o de meu mestre Gilberto Amado, que vai para mais de trinta anos nos encontramos, ele, professor, eu, aluno, “e ficamos para sempre companheiros”: nunca me faltou sua mão no meu ombro.

Ofereço e consagro ainda estes versos àqueles dos meus amigos que choraram ao lê-los. E lembro muito especialmente Carlos e Annah, Rachel, Élvia. A eles repito, em prosa, o que lhes digo num soneto: arrependo-me desta lira monocórdia e prometo comédias para que olhos alheios, mesmo tão próximos, não se manchem com uma dor que é minha. Como dizia Mallarmé, muna frase que Manuel Bandeira me mandou esta semana: “…en poésie, il s’agit, avant tout, de faire de la musique avec sa douleur, laquelle directement n’importe pas”.

XII 1966

O. C., f.

Manuel Bandeira

Palavras de Manuel Bandeira para apresentação de Tempo de Lisboa e outros Poemas

É bom que haja em cada geração poetas abridores de caminhos, mas é bom também que eles não pretendam com isso abolir as velhas estradas tradicionais da poesia. Enriquecê-las, sim, com variantes que levarão ao descortino de novas perspectivas. O verso livre não pode nem poderia abolir a versificação regular, mesmo quando estabilizada nas normas inflexíveis das formas fixas; como o soneto, a balada, etc., imortais e inexauríveis. Lembremo-nos de que quase toda a obra de Villon foi escrita na forma de balada. Lembremo-nos das palavras de um grande abridor de caminhos, Mallarmé, num dos seus bilhetes a Charles Guérin: “…en poésie, il s’agit, avant tout, de faire de la musique avec sa douleur, laquelle directement n’importe pas”.

Odylo Costa, filho, nestes seus poemas não abre caminhos, mas, valendo-se da lição do velho lirismo luso-brasileiro e dos avanços dos movimentos de vanguarda da primeira metade do século, fait de la musique avec sa douleur. Música de timbre próprio, de inefável doçura, sem melaço.

Tendo estreado muito jovem pela poesia, deixou-se levar para a prosa jornalística, em que se tornou um mestre. Mais de um jornal ou revista carioca periclitante apelou com êxito para o seu talento de consolidador e renovador. Odylo parecia definitivamente perdido para a poesia. Eis que de repente um episódio doloroso o reconduziu a ela, temas afins acudiram, e até o amor da sua província, o Maranhão, encontrou voz. a sua voz autêntica nos versos do jornalista já entrado na maturidade, Finalmente a tudo isso se vieram juntar as impressões do seu recente contacto com a terra e a gente de Portugal. Assim se construiu este pequeno grande livro de penetrante poesia,

Rio, 12/XI/1966.

M.B.

Heráclio Salles

Compreensão do Poema

Heráclio Salles

The form of verse is not separable
from the soul of poetry.
W. P. Ker

Importa fazer pequena revelação inicial quanto ao título dêste livro. Odylo Costa, filho. chamou-lhe antes Arca da Aliança; pensou em alguns outros antes de admitir como definitivo o que afinal foi sugerido ao editor. Tomemos, pois, Cantiga Incompletapela sua carga de promessa em relação com uma obra que sabemos em plena elaboração da qual será este o primeiro volume. E afastemos desde logo a idéia de um canto que se interrompeu, para ficarmos convenientemente advertidos de que a Cantiga, reunindo embora sonetos e poemas de forma vária, é um todo integro, solidamente construído a partir da conjugação de dois sentimentos contrastantes — o da morte e o do amor que sobre ela prevaleceu — e inteiramente dirigido ao objeto-chave da transfiguração da dor em alegria.

O que se vai ler é um poema a cuja aspiração íntima de unidade são atraídos irresistivelmente, como que por gravidade, até os que poderiam ficar fora do contexto: o “Romance dos pretos da Capela Velha” e alguns outros, poucos, dos traduzidos e do “Tempo de Lisboa”. Tentemos abri-lo à compreensão do leitor, oferecendo a este, senão o comutador do sistema de iluminação interna do edifício, pelo menos alguma indicação que o ajude a encontrá-lo em sua própria consciência, com a eficácia de seus meios pessoais para lhe atingir o recesso severamente resguardado.

A estratégia da abordagem da obra corre aqui, no entanto, advertidamente, o risco de ser anulada pela estratégia do poeta, que esgota os recursos táticos para impedir o acesso profanador ao núcleo de que se irradia a força encantatória presente em cada página. Jacques G. Kafft, em Poésie – corps et âme, fala ordenadamente dos três estágios da fruição do prazer artístico, o primeiro dos quais seria o prazer das crianças, do povo e de certo número de amadores, que o experimentam sem analisá-lo. No plano da Psicologia, tratar-se-ia de sensação, não ainda de percepção. O segundo estágio é atingido pelo sábio prazer de quem compreende a técnica, admira-a e chega a experimentar uma espécie de inveja inocente.  E no terceiro, reservado a poucos, situa-se o prazer da releitura serena, quando a obra, uma vez sentidacompreendida, faz superar as duas emoções anteriores pela fusão delas no sentimento superior e único de quem se encontra diante de uma obra de arte verdadeira.

Mas que será compreender um poema, no sentido de captar-lhe aquilo a que se convencionou chamar imprecisamente “a mensagem”? Poesia é linguagem; e linguagem é significação. Em Structure du langage poétique, adverte Jean Cohen que não se deve entender na palavra significação, metaforicamente, tudo o que é capaz de sugerir ou expressar, mas o processo de “remeter a” que implica a transcendência do significado: a dualidade dos termos do processo semiológico. No que toca ao objeto do esforço empreendido nestas páginas introdutórias à poesia de Odylo Costa, filho. Carlos Bousoño socorre-nos com sua autoridade, na afirmação-síntese de que “entender um poema não é racionalizá-lo, porém senti-lo”.

Entendamos o sentircomo o conjunto de uma complexa operação psicológica, por meio da qual, acionada a consciência por estímulos a diferentes sentidos — o ritmo, a musicalidade, as sugestões de cor e odor, além das referências conotativas da linguagem — chegamos a penetrar o poema para além de seus elementos extrínsecos e, afinal, aspiramos sua substância(porção vital do conteúdo), tida pelo já citado estruturalista francês como coisa existente em si mesma, independente de toda expressão verbal ou não-verbal.

Sentir assim o poema implica por evidência conceber a poesia como uma forma de conhecimento, uma atividade gnoseológica semelhante à música — a que Beethoven, na famosa anotação de um de seus cadernos íntimos, atribuiu a categoria de “revelação mais alta que a filosofia”. Foi por certo neste alto sentido que Ezra Pound anotou, por sua vez, no ABC of Reading, que a poesia se degrada na medida em que se distancia da música. Coincidem ainda — e é notavelmente significativa a coincidência entre espíritos tão diferentes — Antero de Quental, ao observar na célebre página dedicada aos sonetos de João de Deus que no lirismo puro o sentimento é uno e simples, “o olho com que vemos a Deus. a mão com que lhe palpamos o seio”, e nossa Henriqueta Lisboa, para quem “a poesia não é apenas expressão de uma transcendência mas, primordialmente, a própria transcendência a motivar a vida” e “possibilita, portanto, o reconhecimento do que está acima dos sentidos e a descoberta de novas dimensões espirituais”.

Tudo isto tem muito a ver com a poesia de Odylo Costa, filho, e com o próprio poeta, isto é, com o fato de Odylo haver surgido na maturidade como um poeta de feição clássica, sendo ele um espírito sabidamente aberto a todas as experiências de vanguarda. É que seria impossível dissociar neste livro o poeta do homem, a obra de seu interesse nuclear, a poesia de sua mais profunda significação. Com outro comportamento crítico, tomar-se-ia vã qualquer tentativa para compreender uma obra que desnorteia pela singularidade: tão desligada de escolas ou de concepções grupais e tão intimamente vinculada ao que de melhor se postulou nos mais sérios movimentos vanguardistas a partir da revolução de 1922; tão dorida mas, ao mesmo tempo, tão convincente em seu apelo visceral à paz e à alegria de espírito: de tal modo aberta e eficaz na comunicação de sua substância de dor, de sentimento de perda e desespero tanto mais tocante quanto mais contido, sem embargo tão velada e amena nos aspectos gerais da expressão; tão ressumante de desamor pela vida e, por contraste aparentemente indefinível, tão transbordante de vida interior e de amor ao próximo. Como compreendê-la integralmente sem um mínimo de conhecimento da voz que assim entoa sua Cantiga e das circunstâncias em que foi impelida a cantar?

Bem sei como é polêmica essa indagação e quantas objeções poderiam ser erguidas à necessidade de conhecer o homem e sua circunstância. Nem a Goethe se perdoa. em certa zona ideológica da Crítica, haver declarado a Eckermann que toda a sua obra, inclusive o Fausto, era obra de circunstância. Mas sabemos também que nem a Guimarães Rosa, aparentemente tão alheio como pessoa à sua obra, escapou a necessidade de desfazer tamanho equivoco ou preconceito, quando afirmou que “a vida deve fazer jus à obra e esta deve fazer jus à vida”. Nenhum tipo de elemento deve ser abandonado, se contribui de algum modo para a compreensão mais exata de um poema. A um jovem poeta que com ele se correspondia, forneceu Manuel Bandeira a chave do pequeno poema “Cabedelo”, revelando que em 1928 fizera uma viagem de automóvel ao porto desse nome — realização tardia de velho sonho de infância, quando lia com a irmã, também menina, um livro intitulado Viagem à roda do mundo numa casca de noz. Ao atingir esse objetivo humilde, a irmã já não existia e ele já se encontrava entregue à solidão. Depois disso, como intensifica a emoção dos dois primeiros versos com seu diminutivo (“Viagem à roda do mundo/Numa casquinha de noz”) e como pungem os três versos finais, evocativos da figura da irmã e também da infância perdida, pela reiteração de uma palavra ouvida em muitas cantigas de roda, além da enorme carga expressiva da dúvida manifestada na interrogação reticenciosa: “Ó maninha, ó maninha,/ Tu não estavas/comigo!…/Estavas?…”

Importa, pois, e muito, saber que Odylo Costa, filho, cidadão exemplar e chefe de família perfeito: esposo irrepreensível e pai que se liga com todas as fibras da alma à sorte de cada um dos filhos, apesar de tão numerosos (“nove bocas em torno à nossa mesa”): amigo de cujo convívio guardam todos os companheiros de infância, juventude e maturidade idêntica impressão inapagável de fidelidade, doçura de trato e capacidade de compreender: homem em quem jamais foram identificados por ninguém sentimentos inferiores como inveja, ambição, vingança e crueldade: ser humano fortalecido pela fé mais profunda na face transcendente de sua condição e em quem, por isso mesmo, estava presente a vocação cristã da alegria, foi rudemente visitado pelo destino que lhe bateu à porta duas vezes, arrebatando-lhe em uma delas — súbita, injusta e traiçoeiramente — um filho varão que tinha o seu nome e lhe herdara a sensibilidade e o talento; e noutra levando-lhe, lenta e inexoravelmente, uma das filhas (“E uma sombra perene em nosso quarto”). Indispensável saber que assim sangrando, e vendo sangrar a perfeita e amena companheira de seus anos de alegria, surgiu de dentro dele, depurado e completo, o poeta que estreara na adolescência e fora desviado para outras atividades, mas acompanhara com interesse intenso, como crítico e amigo pessoal de quase todas as grandes figuras que transformaram o panorama literário do país nos últimos quarenta anos, o longo processo dessa transformação. Se fazia versos tão escassamente que Manuel Bandeira o incluiu na Antologia dos poetas bissextos, absorveu atenta e incessantemente todos os ensinamentos da revolução operada na poesia brasileira contemporânea e automatizou, sem que seus amigos o pressentissem senão em certas particularidades estilísticas de sua prosa maleável, fluente e pessoal, os recursos de técnica necessários à manipulação rápida e eficaz da linguagem poética. Descoberto o veio, de chofre, pela rudeza do golpe no solo, jorrou água límpida, incontaminada e cantante: e todos se admiraram da segurança e do virtuosismo da mão que passou a disciplinar e dirigir o jorro inesperado. A água era pura mas antes impressentida: a mão era sábia mas dissimulara durante anos a sabedoria, pela seriedade com que se aplicava em trabalhos menos nobres. O poeta madurara no homem, como que velando por ele, sem que ele próprio o soubesse. E somente hoje explicamos uns aos outros, seus amigos e companheiros, como esse homem era capaz de transformar as coisas da vida cotidiana em puros atos de poesia.

Mais importante a assinalar, no entanto, foi o fato de que o poeta emergiu do homem vencido para salvá-lo: e salvou-o. Não foi convocado pelo homem, em quem a própria ré religiosa, nele tão sincera e arraigada, estava em vias de naufrágio; impôs-se a ele como a própria voz do imperativo categóricokantiano e guiou-o pelo único e seguro caminho da salvação, a ele cujo espírito chegara a experimentar “a tentação da morte voluntária”. Não poderia haver sinal mais forte e emocionante de que estamos diante de um poeta verdadeiro, de um poeta para quem a poesia é ato vital e forma superior — bastante a si e em si mesma — de conhecimento, no mais transcendente sentido que se possa conferir a esta palavra. Todo poeta autêntico — os que constituem exceção à regra são por isto mesmo chamados malditos— é um homem que se salva pela poesia. Bastaria lembrar, entre tantos outros, o caso eminente de Goethe que se salvou duas vezes: da “tentação da morte voluntária” na juventude, compondo o Werther: e da estranha febre que lhe causou uma paixão absurda, aos oitenta anos, compondo em fuga a Elegia de Marienbad. Transfiramos a afirmação para a voz fria de um teórico da ciência literária:

“O homem concebe o mundo mais ou menos ordenado; inclusive só o concebe na medida em que o ordena; e quase sempre sente a necessidade de expressar essa concepção, comunicando-a, para que se faça fazenda e possessão verdadeira da alma, para que seja plenamente verdade o que concebe.

“Em conseqüência, a poesia, ou é uma ordenação salvadora, ou é mero passatempo — talvez útil e respeitável para certos instantes do dia.”

Evidenciado o grande motivo da poesia de Odylo Costa, filho, não é difícil perceber a sólida unidade interna deste livro, cujas partes se expõem íntima e claramente ligadas por uma espécie de fio carregado de eletricidade. Trata-se de revelação feita à revelia do poeta e, até, com alguma violência às suas intenções. Seu cuidado, ao contrário, é ocultar essa verdade, parecendo-me de certa significação, nos dois sentidos, que a primeira página útil do livro esteja ocupada por um poema de apenas três versos, sob o título “A dor”, no qual se patenteia a cautela de não molestar o leitor com a exposição direta do sofrimento. Atenção especial merece o verbo fazer, empregado na forma da terceira pessoa do presente do indicativo e não na do imperativo (faze), que concordaria rigorosamente com a segunda pessoa (te). Por quê? Odylo Costa, filho, minucioso sabedor da língua, não o faria por acaso. A inorganicidade dos três versos — que abrem uma coletânea de poemas sàbiamente estruturados segundo as normas tradicionais da versificação, inclusive os versos livres de ritmo cuidadosamente tratado — parece denunciar a intenção de uma ambigüidade, anunciadora por sua vez da delicadeza de que se revestem, quando chegam a ocorrer, as confissões de sofrimento: o fazjustifica- se pelo uso dessa forma no português coloquial do Brasil, ao mesmo tempo que chama a si, como sujeito, o próprio autor, tratado na terceira pessoa como se fosse outro. A leitura atenta do livro vai demonstrar que é, de fato, outroquem comunica a experiência dolorosa, a qual, uma vez comunicada em termos de poesia, opera a transfiguração buscada pelo poeta e alcança o nível estético da dor-prazer, em que se encontram, por especial processo de interação, autor-leitor. A tal resultado chama Sartre alegria estéticaque consiste na sensação consoladora de plenitude vital por nós experimentada ao aperfeiçoar-nos — conhecendo. Carlos Bousoño di-lo por outras palavras quando sustenta que não é um conteúdo anímico real o que se comunica na poesia, mas sua contemplação: “quem se comunica no poema não é o poeta mas um ser imaginário”. A formulação é nova, porém velha a idéia, já encontrável em Schiller: “A perda de um bem significativo, que nos prostra hoje ao chão, e nossa dor comovem o espectador; dentro de um ano, nós mesmos nos lembraremos dessa dor com sensibilidade comovida,” “O fraco é sempre vítima de sua dor; o herói e o sábio apenas irão comover-se, por maior que seja o infortúnio”. Que é comover-se? “…em seu estrito significado”, completa o poeta alemão, “designa o sentimento misto de sofrimento e prazer no sofrimento”.

Quem quiser precisar o sentido transcendente desse tipo de prazer, que rompe o círculo da arte para penetrar o domínio da metafísica, é abrir esta Cantiga Incompleta e ler, quase ao acaso, um dos poemas, por exemplo, “Ressurreição” ou o “Soneto do amor teimoso”. Para comunicar tal experiência interior, tão associada à sua própria razão de existir, Odylo Costa, filho, não poderia haver escolhido outra forma senão as que se vão encontrar, isto é: formas já historicamente amadurecidas para lhe darem a garantia de adequação ao caráter perene do conteúdo, desde que em poesia se trata de coisas inseparáveis. Neste sentido, e em tais circunstâncias, não poderia surgir como um abridor de caminho, como um experimentador de formas e fórmulas novas. Estava psicologicamente inibido para fazê-lo; e se vencesse a inibição, tentando-o, correria o risco de incorrer na censura que do grande e doce Manuel Bandeira mereceu Mário de Andrade, por ser “indiscretamente pessoal” em suas experiências de linguagem. Mário poderia sê-lo, considerada a destinação de seus experimentos; mas Odylo não, ainda que o quisesse, dada a natureza do conteúdo que tinha a comunicar. Não teria opção diante de formas cristalizadas dentro de si, ou, melhor, formas que estavam automatizadas sob sua mão, como instrumento dócil e veloz no ato de comunicar. O instrumento — como ocorreria com um grande violinista em face de uma página transcendente a interpretar — não poderia pôr em evidência o seu virtuosismo, mas haveria de colocá-lo inteiramente a serviço da interpretação. O caminho de Odylo Costa, filho, desde que o poeta voltou a emergir do homem, estava previamente traçado: era o caminho universal que conduz à realização das obras clássicas. A longa maturação anterior de procedimentos técnicos modernos tornou-o, naturalmente, um clássico irredento quanto a formas, porém resignado dentro de formas preexistentes que sua mão, sem embargo, discretamente como convinha à comunicação do conteúdo, remodela, amplia, areja e maleabiliza de modo notável. O mesmo ocorrera, por ser o mesmo o fenômeno, com o Abgar Renault de A lápide sob a Lua.

Conteúdo estável, forma estável.

Jacques Kafft, no citado Poésie — corps et âme, recorreu à Química para dar concreção mais instantânea à distinção entre prosapoesia— objeto de muitos esforços malogrados no âmbito da ciência da literatura. Na prosa, segundo ele, formaconteúdoseriam elementos distintos, como individualizadas e independentes permanecem a limalha de ferro e a poeira de súlfur quando simplesmente misturadas: basta a aproximação de um imã para dissociá-las. Os mesmos elementos, combinados por aquecimento, dão um terceiro corpo, o sulfureto de ferro, do qual já não poderão separar-se. Do mesmo modo, forma e conteúdo se combinamna poesia e fazem dela um todo em si, para si, e por si. Identificação definitiva da coisa dita com a maneira de dizê-la: corpo e alma. Mencionando a opinião de W. P. Ker. para quem “a forma do verso é inseparável da alma da poesia”, P. Gurrey lança mão de outra imagem expressiva para veicular o mesmo conceito: “Poesia não é a noz nem sua casca, mas uma coisa só.”

Odylo Costa, filho, adotou a forma lírica por excelência, que é o soneto, numericamente predominante neste livro, apesar de ser, das formas líricas remanescentes (algumas, como a balada e a sextina, praticamente desapareceram), a mais difícil. Mas não se trata de simples rétour. O soneto, em suas mãos, readquire a plena dignidade da estrutura fixada na tradição luso-brasileira, com a evolução operada de Camões a Antônio Nobre; de João de Deus e Antero a Jorge de Lima. Submete-o, contudo, a um trabalho de renovação, que incorpora os recursos da poesia insubmissa e lhe confere notável fluidez e ductilidade. Alguns dos integrantes da chamada geração de 45 já haviam retornado à velha forma pioneiramente, mas por isso mesmo com resultados menos assinaláveis. Cabe sem dúvida a Odylo — sem que desconheçamos outras contribuições de alto nível, como os Sonetos do tempo perdidode Waldemar Lopes — o título que  lhe outorgou Prudente de Morais, neto, de restaurador da bela e antiga estrutura. Em seus sonetos, ao contrário da forma construída por Francisco de Vasconcelos e estudada por Wellek e Warren, a alienação não se erige em princípio estrutural e se estabelece por disciplina interna, de tal modo que freqüentemente só ocorrem pausas ao cabo de dois versos, às vezes o segundo derramando-se ainda no terceiro por efeito da liberdade alcançada no enjambement, plàsticamente usado; e outras vezes ocorrendo interpenetração das próprias estrofes. Cada parte, assim, como que se põe em movimento e tende quase sempre a se integrar nas demais, para benefício da unidade estrutural, interna e externa, do poema. Aqui seria simplesmente impraticável a concepção do verso como entidade autônoma, tal qual o viram os chamados formalistas russos; mas como unidade substancialmente integradora do conjunto arquitetônico — tal o concebem os estruturalistas.

Alguns dos recursos mais característicos da poesia moderna são aqui identificáveis com tamanha facilidade, que me dispenso de exemplificar: a heterogeneidade rítmica (decassílabos heróicos sistemàticamente convizinhando com sáficos e imperfeitos): a naturalidade do enjambement, pelo qual se alarga a dimensão do verso, que se projeta no seguinte sem violência ao metro de nenhum dos dois; procedimentos enumerativos e acumulativos, que permitem às palavras transitar de um verso para outro com a graça de círculos que se interpenetram pela simultaneidade de dois toques na superficie da água; e uma sábia prudência no pontuar, que libera a respiração do leitor até a fronteira de suas necessidades psicológicas.

Esta última é característica marcante de nossa poesia moderna. Impôs-se desde cedo como exigência da nova ordem ditada pelos teorizadores da revolução de 1922; e como decorrência da conjugação perfeita entre a liberdade reclamada por todos e o esforço disciplinador com que alguns, culturalmente mais bem aparelhados, procuravam racionalizar o ímpeto geral de libertação. Mário de Andrade, enviando a Manuel Bandeira um exemplar do Clã do jaboti, escreveu em 1924: “A vírgula a maior parte das vezes é preconceito de gramático. Uso dela só quando sua ausência prejudica a clareza do discurso, ou como descanso rítmico expressivo. Também abandonei a pontuação em certos lugares onde as frases se amontoam polifônicas.”

Observe-se como procede Odylo Costa, por exemplo, no poema “Ressurreição”: em 31 versos emprega a virgula três vezes, outras tantas o ponto e duas vezes a interrogação, a qual é, aliás, simples figuração da índole da frase. As vírgulas são sempre usadas como recurso expressivo. Serve a primeira, logo no primeiro septissílabo, para conter o “ímpeto de tigre manso” e melhor mostrá-lo, no segundo verso, “de repente despertado”. A segunda vírgula tem a mesma função após a palavra “amor”, para que a segunda parte da estrofe possa fluir com toda a elasticidade que vai ser sugerida, metaforicamente, pelo proparoxítono “relâmpago” (a estrofe inicia-se, como se viu, com o proparoxítono “ímpeto”), surgindo então com a velocidade pretendida, do “rapaz”, o “homem feito”. No soneto, poema de pequenas dimensões externas, tal recurso produz às vezes efeito extraordinário e lhe confere, além de fluência e flexibilidade, uma duréesurpreendente na sensibilidade do leitor.

Outra fosse a natureza deste trabalho e poderiam ser multiplicados os exemplos em que se evidenciam alguns recursos estilísticos de que resulta a magia evocativa da maioria dos poemas: aliterações (“A fina face tem um novo brilho”, “Vêm ventos novos pelas velhas águas”), combinações de vogais, anáfora (“feita só de vôo/feita só de areia/feita só de riacho/feita só de mar”), fórmulas duplas e ternárias, parecendo estas, principalmente, uma tendência psicológica do poeta: “entre marés, luares e telhados” — “de sobrados, mirantes e varandas”  — “em pânico, soluços e arrebol” — “as gotas dágua, as roças, os cajueiros” — “Era a graça, era o corpo, era a poesia?/ Era a esperança, a fé, a caridade?”

As páginas que se vão abrir mostrarão sempre mais que esses exemplos. Somente o conjunto delas é capaz de revelar a poesia de Odylo Costa inteiriça e resistente a qualquer esforço de fragmentação. Poesia verdadeira, alta e nobre. Brasileira pela linguagem e pela intensidade do colorido, quando o tom elegíaco se faz evocativo da paisagem do Nordeste; e universal pelo que exprime de fundamental no ser humano, como pela serenidade clássica da forma. Poesia protegida por inconsútil véu de modéstia e pudor, mas que comove como um soluço reprimido; e sobretudo consola.

Poesia da melhor que se faz hoje em língua portuguesa; em qualquer língua.

Brasília, outubro de 1971.

Waldemar Lopes

Soneto de Amizade para Odylo Costa, filho

de Waldemar Lopes

A dor na luz. do poema consumida
(era a lição de Goethe); e, seiva ardente,
ei-la em teu puro canto, onipresente.
Nem pode a morte o que não pôde a vida:

apagar na memória de repente
rudes chãos, quietos céus, sombra incendida
ao sol da infância, a fonte inexaurida,
amor feito de ausência, mas presente

no canto amargo, lúcido chorado,
de timbre austero e humilde, tom de dor,
água, sangue e raízes do passadoem que atônitos anjos/lobisomens
terão cunhado eterno o versomor:
Deus necessita do perdão dos homens

Martins Napoleão

Soneto para Odylo Costa, filho

de Martins Napoleão

Li tua poesia em mãos do Dante.
Não teus versos, mas tua poesia,
aquela que nos vem no puro instante
em que o barro mortal, que é forma fria,

ao contacto de Deus se torna arfante.
(Assim no peito o coração, no dia
em que se aquece trêmulo diante
do misterioso pão da Eucaristia).

Achaste a poesia verdadeira
que entre sombras eternas se insinua
até chegar à nossa triste poeira.

A terrível espada do anjo forte
que, atravessando a nossa carne nua,
só nos fere de amor em vez de morte.

Carlos Drummond de Andrade

Soneto de Odylo

de Carlos Drummond de Andrade

Do mirante no sítio do Rocio
Odylo vê o mundo — campo largo,
campo-maior, onde se estende o fio
da completa existência, e, suaveamargo,

o fruto do viver se colhe: sabe
a tudo o que foi sonho e, ainda sonho,
vige, esperança eterna, que não cabe
no tempo o ser, e o vinho no vidonho.

Odylo e Nazareth, tão irmanados
que um não é sem o outro, na paisagem
de filhos e trabalhos ajustados

ao desígnio de Deus: em clara imagem,
feita de transparência e aberta em flor,
nos dois se grava esta lição: Amor.
                                            XII 1964.

Livraria José Olympio

Nota da Livraria José Olympio para a Edição de 1971

Dados Biobibliográficos do Autor

Filho do casal Odylo de Moura Costa e Maria Aurora Alves Costa, nasceu Odylo de Moura Costa, filho, em São Luís do Maranhão a 14 de dezembro de 1914, pouco depois de começada na Europa a guerra que sepultaria em definitivo o século XIX. Mas, embora maranhense de nascimento, Odylo Costa, filho, fez estudos primários e secundários em Teresina, Piauí, os primeiros no Colégio Sagrado Coração de Jesus e os segundos no Liceu Piauiense, o que lhe confere assim dupla afetividade de província, fraternalmente desdobrada entre as duas cidades, e estendida a Campo Maior, no Piauí, onde nasceu sua mulher, D. Maria de Nazareth Pereira da Silva Costa, com quem se casou em 1942, sob a bênção de três poetas: Manuel Bandeira, Ribeiro Couto e Carlos Drummond de Andrade, padrinhos do casamento.

Mas já aos 16 anos, em março de 1930, Maranhão e Piauí ficavam para trás e Odylo Costa, filho, em companhia dos pais fixava-se no Rio de Janeiro, bacharelando-se em Direito, pela Universidade do Brasil, em dezembro de 1933. Desde os 15 anos, porém, já se revelava no jovem maranhense a vocação de jornalista, que encontra aliás seu primeiro abrigo no semanário Cidade Verde, de Teresina, fundado em 1929. Por isso mesmo, em janeiro de 1931, conduzido por Felix Pacheco, entrou Odylo para a redação do Jornal do Comércio, onde permaneceu até 1943. O jornalismo, entretanto, embora ocupando boa parte de sua atividade intelectual, não o fazia esquecer a literatura e, em 1933, com o livro inédito Graça Aranha e outros ensaios, publicado no ano seguinte obtinha o maranhense o Prêmio Ramos Paz da Academia Brasileira de Letras. Em 1936, em colaboração com Henrique Carstens, publica o Livro de Poemas de 1935, seguido nove anos mais tarde do volume intitulado Distrito da Confusão, coletânea de artigos de jornal em que, nas possíveis entrelinhas, fazia a crítica do regime ditatorial instaurado no país em 1937. Mas o Jornalismo, apesar desses encontros sempre felizes com a literatura, foi na verdade sua dedicação mais imensa, exercido alias com notável espírito de renovação e modernidade. Deixando o Jornal do Comércio, Odylo Costa, filho, foi sucessivamente fundador e diretor do semanário Política e Letras (de Virgílio de Melo Franco, de quem foi dedicado colaborador na criação e nas lutas da União Democrática Nacional), redator do Diário de Notícias, diretor de A Noite e Rádio Nacional, chefe de redação do Jornal do Brasil, de cuja renascença participou decisivamente, diretor da Tribuna da Imprensa, diretor da revista Senhor, secretário do Cruzeiro Internacional, diretor de redação de O Cruzeiro e, novamente, redator do Jornal do Brasil, função que deixou em 1965, ao viajar para Portugal como adido cultural à Embaixada do Brasil. Mas nem sempre, ao longo dessa extraordinária atividade, foi ele apenas o jornalista de bastidores, o técnico invisível. Em 1952 e 1953, por exemplo, exerceu a crítica literária no Diário de Notícias, onde também criou e manteve a seção “Encontro Matinal”, juntamente com Eneida e Heráclio Salles. Durante prolongado período, publicou uma crônica diária na Tribuna da Imprensa.

Na vida pública, Odylo Costa, filho, foi Secretário de Imprensa do Presidente Café Filho, Diretor da Rádio Nacional e Superintendente das Empresas Incorporadas ao Patrimônio da União.

A partir de 1963 circunstâncias dolorosas levaram-no de volta a uma prática mais constante da poesia, que não abandonara de todo embora fugisse à publicação em letra de forma e até mesmo à leitura pelos amigos mais íntimos. E foi o maior deles, Manuel Bandeira, ao preparar a 2aedição da sua Antologia dos poetas brasileiros bissextos contemporâneos, o primeiro a ler alguns desses poemas, sobretudo os inspirados pela morte de um filho ainda adolescente, que tinha seu nome, poemas esses que Bandeira colocava entre “os mais belos da poesia de língua portuguesa”. Animado ainda por Bandeira, Rachel de Queiroz e outros amigos, Odylo Costa, filho, reuniu afinal seus versos em volume publicado em Lisboa em 1967, que agora, muito ampliado com os poemas da “Arca da Aliança” e com o título de Cantiga incompleta, esta Editora oferece aos leitores brasileiros abrangendo toda a poesia do autor. Mas se a poesia tem sido uma constante presença em sua vida, a ficção também participa de sua bibliografia literária desde 1965, quando, aos 50 anos, publicou a novela A faca e o rio, já traduzida para o inglês pelo Prof. Lawrence Keates, da Universidade de Leeds, e para o alemão por Curt Meyer-Clason, em vias de publicação. A propósito dessa novela, Gilberto Amado escreveu ao autor: “Li de um fôlego, estou sem fôlego”. À edição portuguesa de A faca e o Rio (Lisboa, 1966), acrescentou Odylo Costa, filho, o conto A invenção da Ilha da Madeira, nova e feliz experiência do ficcionista até então oculto pelo poeta, e ainda prolongada no conto História de Seu Tomé meu Pai e minha Mãe Maria, em edição fora do comércio.

Profundamente ligado ao Maranhão (foi eleito para suplente, no Senado Federal, do ex-governador José Sarney) escreveu a introdução aos desenhos da pintora Renée Levèfre no belo livro Maranhão: São Luís e Alcântara (1971, Cia. Editora Nacional). De abril de 1965 a maio de 1967 o autor de A faca e o rio foi adido cultural da Embaixada do Brasil em Portugal, onde mereceu a honra de ser incluído entre os membros da Academia Internacional de Cultura Portuguesa. De regresso ao Brasil, embora tivesse recusado o convite do  Presidente Costa e Silva para exercer o cargo de Diretor da Agencia Nacional, Odylo Costa, filho, voltou no entanto ao exercício do jornalismo, primeiro como Diretor da revista Realidade, de São Paulo, e mais tarde como diretor de redação da Editora Abril, no Rio, empresa a que continua ligado como membro do Conselho Editorial. Odylo Costa, filho, pertence à Academia Brasileira de Letras onde foi recebido por Peregrino Júnior, sucedendo a Guilherme de Almeida, na cadeira no15, fundada por Olavo Bilac, de que é patrono Gonçalves Dias.

Rio, novembro de 1971.