Celebração do Amor

Cedendo, confuso e agradecido, ao convite que me fazem os de Odylo Costa, filho — Nazareth e os filhos do casal — para dizer uma palavra de abertura a esta obra-prima, entro, maravilhado, no mundo dos anjos, que o amigo poeta, antes de nele obter eterna cidadania, e sua mulher Nazareth, já cidadã por direito de nascença, nos revelam, profetas que são e videntes de realidades tão densas.

Segundo velha distinção dos antigos Padres da Igreja, escritores dos primeiros séculos, cada ente tem a sua “medida”, mesmo Deus. A medida divina é a eternidade imensurável; a do homem, o tempo; a do anjo, aquilo que eles, na sua língua grega, chamam de aión, o mesmo que o aevum dos latinos, esse indefinível espaço-tempo entre a eternidade e o tempo, como que o primeiro fruto da criação, ainda impregnado de espírito.

É bem nesse lugar sem tempo nem espaço, que o casal amante nos convida a entrar, para que possamos, guiados pelas mãos de Nazareth-Beatriz e pelo canto inspirado de Odylo, Dante, ou Orfeu, ou, talvez, Vergílio, não só contemplar especulativamente a sua beleza, mas também gozar dele, como de um fruto amadurecido.

Entramos, assim, na pátria comum dos anjos, de Nazareth e de Odylo, que podem repetir com o salmista nostálgico: “Todas as minhas fontes estão em ti” (sl. 86).

Segundo a concepção antiga, o universo angélico é um cosmos hierarquizado, círculos vibrantes de amor e luminosos de conhecimento intuitivo, palpitando de trocas intensas e íntima comunhão. Das mais altas esferas até à fímbria inflamada dos coros, as ordens angélicas são absorvidas pelo amor e o conhecimento do Excelso, onde também conhecem e amam, na sua fonte, as coisas da criação.

A esta visão dos seres criados, intuídos na sua própria nascente, S. Agostinho chama “visão matinal”, a criatura vista na sua pureza ontológica. Mas ele adivinha, nos anjos, uma outra atividade cognoscitiva, apreendendo os seres não mais em sua origem eterna, mas neles mesmos, em sua existência histórica e concreta. Tal ciência, Agostinho a chama “visão vesperal”, que é, sem dúvida, fiel, mas como que esmaecida pela erosão do tempo.

Penso que os anjos de Nazareth e de Odylo se acham em ato dessa visão vespertina, apanhando as coisas em seu itinerário temporal. São anjos que participam, anjos companheiros da menina e do menino, acompanham as procissões, pisam no chão de palmeiras, perpassam a cerca de arame, olham a cidade dos homens e andam em suas ruas, colhem flores do campo. O seu universo deixa, então, de ser paralelo, integra-se no humano e no tempo dos homens, onde deixam esse rastro sutil que o poeta percebe.

Às vezes, é verdade, eles empunham instrumentos humanos, para — quem sabe? — traduzir harmonias matutinas, que o poeta escuta.

A naturalidade, o genuíno dessa experiência é tão óbvio, que tudo nos parece congênito e não postiço.

Esta obra conjunta do casal amante me parece uma melodia gregoriana. O cantochão é o casamento perfeito da música e da palavra. Há nele o respeito recíproco, e é isto que me parece acontecer entre o verso e o desenho, fundidos sem se desqualificarem, o máximo de unidade no máximo de alteridade.

Só mesmo o puro amor pode fazer tal milagre.

Nos versos da Boca da Noite (presságio do fim próximo, sentido não como termo, mas como consumação), Odylo continua o seu constante canto de amor. Aí ele aparece liberto do desenho, se é verdade que o desenho o agrilhoava, quando, em verdade, ele mais o cativava, o que é bem outra coisa, que os que se amam entendem, movendo-se na liberdade do amor.

Na realidade, é a mesma inspiração que anima a Boca da Noite, onde o poeta experimenta a sua madureza e destila o doce sabor da vida chegada à sua total expansão.

Um fruto acabado e perfeito, obra já mais de sábio que de profeta, lançando sobre si e sobre o mundo um olhar lúcido e sem ilusão, vindo da experiência e de uma inspiração mais profunda do que ela. Sente-se o homem senhor e livre, visitado por uma Sabedoria superior, tão inspirado por Deus como o profeta, mas não torturado como este.

O fruto da Sabedoria é doce, e Odylo no-lo oferece num prato de Beleza e de Amor, para que nos banqueteemos na paz, na recordação, na forte experiência que nos dá um homem que chegou à plenitude.

Bahia, 18 de outubro de 1979

Timóteo Amoroso Anastácio abade